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Quem vai cuidar de nós?

Entre aposentadorias, patrimônio, apoio familiar ou solidão, brasileiros LGBTQIAP+ acima dos 60 anos revelam os desafios de envelhecer com autonomia e colocam em xeque a capacidade do país de oferecer renda, cuidado e proteção social

28/06/2026 às 10h00 Atualizada em 31/08/2026 às 22h29
Por: Luzimar Soares
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Davi Reis fala de solidão e de como teve que reaprender com a vida - Crédito: Raphael Plínio
Davi Reis fala de solidão e de como teve que reaprender com a vida - Crédito: Raphael Plínio

Aos 64 anos, Ataíde descobriu que ainda havia espaço para um novo capítulo na vida: o de ser pai. Casado há mais de duas décadas com Claudiomar, ele iniciou ao lado do companheiro uma jornada para ampliar a família que, há quatros anos, ganhou um novo integrante: Miguel. A chegada do filho transformou a rotina do casal e também trouxe uma nova perspectiva sobre o futuro, inclusive sobre como organizar a vida, os recursos e o planejamento financeiro para uma família que nasceu em uma fase da vida em que muitos já pensam apenas na aposentadoria.

A história de Ataíde expõe uma realidade pouco discutida quando se fala em envelhecimento: a vida financeira também pode ganhar novos projetos, responsabilidades e necessidades depois dos 50 anos. Para casais LGBTQIAP+, essa discussão pode ser ainda mais complexa, diante de trajetórias familiares diversas, períodos de afastamento ou falta de apoio familiar e, em alguns casos, da necessidade de construir uma rede de proteção própria ao longo da vida. Ter uma aposentadoria ou uma renda estável, portanto, não significa necessariamente que o planejamento financeiro esteja encerrado.

No caso de Ataide e Claudiomar, a chegada de Phellipe representou também uma mudança na maneira de olhar para os próximos anos. Educação, saúde, moradia, lazer e a própria segurança financeira da família passam a fazer parte de uma conta que não existia da mesma forma antes da chegada do filho. É um planejamento que rompe com a ideia de que envelhecer significa apenas preservar o patrimônio acumulado: para algumas pessoas, a terceira idade pode ser justamente o momento de reorganizar recursos para realizar projetos que foram adiados durante décadas.

"Esse movimento ganha importância diante das transformações demográficas e dos diferentes formatos de família que existem hoje. Para pessoas LGBTQIAP+ que chegam à velhice, questões como aposentadoria, patrimônio, sucessão, dependência financeira e proteção do companheiro podem assumir contornos particulares", ressalta o economista da Universidade Mackenzie, Eduardo Luiz de Assis.

Segundo ele, quando uma nova responsabilidade familiar surge depois dos 60, o planejamento precisa considerar não apenas quanto dinheiro existe, mas por quanto tempo ele precisará sustentar diferentes gerações e quais escolhas precisam ser feitas para garantir autonomia no futuro.

Ataíde, porém, prefere olhar para essa nova fase pelo que ela acrescentou, e não pelo que poderia ter sido diferente. "Confesso que a paternidade chegou numa fase em que eu já vivi boa parte da minha vida, mas me trouxe a sensação de que ainda havia tempo para poder começar de novo, sabe?", diz.

Para ele, a chegada de Miguel é também uma prova de que projetos de vida não precisam obedecer a uma idade determinada e que planejar o futuro financeiro pode ser menos sobre se preparar para o fim de uma trajetória e mais sobre criar condições para viver plenamente os próximos capítulos. “Hoje eu posso te dizer com tranquilidade que eu renasci, eu sou uma outra pessoa”, celebra.

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